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Você já prestou bastante atenção em seus companheiros de clube? Tem certeza? Olhe lá... Pense uma vez mais. Busque na memória; vá fundo. E aí? Continua achando que sim? Pois bem, esse nosso papo é sobre talentos escondidos, guardados, sem a menor necessidade, como se fossem segredos intransponíveis. Vamos falar sobre a capacidade de produzir do maior bem que o Rotary International dispõe em seu patrimônio: nós, os rotarianos. E também sobre talentos pouco aproveitados, por falta de visão do potencial dos envolvidos ou timidez nos trabalhos rotários.
Somos líderes em nossas profissões e temos carreiras de sucesso onde atuamos. Pelo menos esse é o perfil exigido de todo candidato a sócio. Então, qual o motivo de alguém tão qualificado esconder o jogo sobre certas vocações adormecidas? Por que evitar a evidência de um talento essencial no trabalho rotário? Nem procure a resposta no racional, minha gente. A cabeça do ser humano é algo único. Cada um tem seu jeito de ser. Uns mais transparentes, outros nem tanto, e por aí vai. Se fosse o contrário, os hoje procuradíssimos psicólogos estariam sem clientela. Longe de ser psicólogo, mergulho nesse mar revolto mais como o desafio ao repórter disposto a desvendar um mistério. Há dois pontos importantes no relacionamento humano: lealdade e honestidade. Quando nos referimos à lealdade, aí incluímos a confiança essencial à boa convivência entre as pessoas. Nenhum jornalista consegue informações sem angariar a confiança de seu entrevistado. Ele aposta na capacidade do repórter em transformar a conversa em notícia consistente, coerente com a verdade. Aquela coisa olho no olho; o antigo fio do bigode, hoje fora de moda porque as mulheres – ainda bem – conquistaram seu espaço na sociedade. Esse sentimento serve como parâmetro para qualquer setor da mesma sociedade. Sem confiança, nada feito. Honestidade é outro conceito fundamental. Navegar na ética sempre nos leva a porto seguro. Ter firmeza de propósitos passa a imagem da seriedade sem a qual o Rotary não vive. Outro ponto importante é a identidade com o projeto; qualquer projeto.
Vamos ao modelo clássico de confiança quebrada. O novo sócio entra no clube e nem sempre é aproveitado nos trabalhos rotários. Os motivos são muitos. Cito alguns: os espaçosos "donos do clube", lideranças que aceitam qualquer idéia, desde que coincida com a sua; a falta de sensibilidade de alguns dirigentes, em nunca dividir o trabalho com os novatos, por medo de não dar certo; os grupinhos – em alguns casos, grupões – espalhados pelos quatro cantos, sem dar espaço à interação essencial na vida de um clube. O recém-admitido fica ali, meio perdidão, com pouca atenção de quem deveria orientá-lo. Sem aproveitamento, ele está com o pé na rua. Basta um empurrãozinho – e isso pode ser até algo sem muita importância -, e ele aproveita a oportunidade e pede o boné. Vai embora sem contribuir com as ações sociais, seu principal objetivo ao aceitar o convite para ser rotariano. Aquela confiança depositada no padrinho e na organização perdeu-se no modelo equivocado de se fazer Rotary. Tempos depois, o ex-sócio destaca-se em alguma atividade e todos se perguntam: por que ele não foi tão eficaz no clube? E precisa responder?
Isso vale para fora do Rotary também. No Rio de Janeiro, tínhamos um time de futebol de salão com os donos de sempre. Na turma, dividíamos os times A e B entre os que achávamos com mais pinta de craque. O Ernani, apelidado de Padreco pela coroinha da calvice bem acima do couro cabeludo, nunca entrava no jogo. Era baixinho, tímido e com jeito de nem saber o que era a bola. Um dia, faltava alguém para completar o time B. Ele entrou e fez cinco gols só no primeiro tempo. Depois contou, ainda tímido, que tinha sido titular de um time universitário no Rio Grande do Sul seu estado natal. Um mais atirado questionou: "Por que você nunca disse que jogava essa bola toda?" A resposta foi obvia: "Vocês nunca perguntaram..."
O modelo acima, do clube problemático, já é por demais conhecido de todos. Exemplos e mais exemplos são descritos nos treinamentos distritais. Nem sempre a teoria consegue mudar a prática. Esse tipo de clube pode até dar certo, porém o entra-e-sai de sócios impressiona. Mas há inúmeros casos de talentos escondidos em clubes organizados e eficientes. Parece um paradoxo – organização e eficiência sem identificar-se uma habilidade a mais naquele sócio. Aí entra o caso da identidade com o projeto. O trabalho precisa tocar a alma de quem o faz. A oportunidade precisa ser contundente, mexer com a emoção da pessoa. Fazer com que saia de seu casulo e abrace a causa fortemente. Sair da cozinha trivial e partir para o refinamento, o detalhe que faz a diferença. Você precisa garimpar lá no fundo para identificar o ponto certo que fará detonar o emocional em toda a sua plenitude. Normalmente, são situações já vividas na família ou com ele próprio.
Há muitos anos, um companheiro pouco freqüente nas reuniões semanais – segundo ele, seu trabalho exigia sua presença justo no dia da reunião – acabou tocado pelo relato de um trabalho desenvolvido numa parceria do clube com o governo estadual. A idéia era mostrar à população a importância em tratar o deficiente como um ser humano diferente, mas merecedor de toda a atenção da sociedade. Título da campanha: "Deficiente, gente como nós". Naquela reunião ele estava presente. Ao ouvir a intervenção do representante do clube na comissão organizadora, ele pediu a palavra e falou por mais de meia hora sobre um caso em sua família, onde houve dificuldade na aceitação do problema. Botou para fora toda a sua angústia e se dispôs, ao final, a participar de todas as etapas dos trabalhos nos bairros, fazendo palestras sobre o tema. O clube ganhou um rotariano eficaz, mas também uma dúvida sobre nosso olhar em torno dos sócios: como nunca percebemos aquele problema na vida de uma pessoa tão alegre? A partir daquele dia, implantou-se uma atividade denominada "Quem sou eu", onde cada companheiro tinha um tempo para contar sua vida. Os resultados foram surpreendentes.
Às vezes os clubes têm bons trabalhos que ficam restritos à área municipal, quando poderiam ser expandidos a todo o estado e até mesmo a nível nacional. Rotarianos capacitados a fazer a diferença limitam-se a atuar a nível local ou regional, contentam-se em cumprir etapas sem ousar como deviam. Cabe às lideranças rotárias perceber a extensão do benefício, se expandida a ação, em compartilhamento com clubes e distritos. O maior exemplo é o do EGD José Maria de Souza, como ele mesmo contou ao fazer palestra na Celebração Presidencial da Saúde Pública, em março de 2005 no Rio de Janeiro, cujo resumo foi publicado pela Brasil Rotário. Doutor em Medicina, médico e farmacêutico de formação, José Maria é uma das maiores autoridades em malária no planeta. Mas até a metade da década de 1990 dedicava-se apenas a uma parte da Amazônia. Somente ao se envolver com o trabalho de prevenção à malária na Bolívia, através do Distrito 4720 de Rotary International, passou a ser conhecido fora da Amazônia Oriental e conseguiu transferir conhecimentos no mundo rotário por todo o país e no exterior. Antes, suas palestras eram restritas ao círculo acadêmico mundial. Agora passa muito mais pelo Rotary.
Agora você entendeu o motivo da pergunta do início desse artigo? A lente com que vemos as pessoas e as situações ao nosso redor pode representar uma sociedade menos sofrida. Se prestarmos mais atenção ao que acontece no mundo em que vivemos, acabaremos instrumentos do bem-estar e da justiça social. Estamos no lugar certo, no Rotary International. Só falta caprichar na sensibilidade. Faça isso e depois me conta o resultado. Artigo do Companheiro Jornalista EGD Fernando Antonio Quintella Ribeiro – D4720 Vice- presidente 2005/2006 do Communication Committee de Rotary International."
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